Saturday, July 4, 2009

Alguns conseguem...Morrer

No corredor da vida, por vezes passamos por esse aviso

Com a morte estampada na capa dos jornais e revistas das últimas semanas, só poderia falar dela nessa postagem.

Morrer é diferente para cada um. Dependendo de quem você é, a sua morte será explicada de um jeito. Tomando como base dois fatos marcantes, o acidente envolvendo o avião da Air France em 31 de maio e o falecimento de Michael Jackson, temos aqui um bom estudo de caso.

Toda vez que muitas pessoas deixam a vida simultaneamente por conta de uma tragédia, não existem mortos individuais e sim um sentimento maciço de perda. Neste caso do acidente aéreo, o avião é que foi perdido, ele é um grande cadáver. A grande máquina falhou e levou consigo sonhos e esperanças, pais e filhos, mesmo assim, será ela a lembrada daqui a um tempo. Tal como as asas e demais partes da fuselagem, a memória individual das pessoas se desfez no momento do acidente.

Em relação ao desaparecimento de celebridades, a palavra morte é inadequada. O corpo de um artista é inexistente mesmo quando ele ainda vive. Só existe imagem e essa permanecerá para sempre, sendo a morte o ato final da obra, o epílogo. O processo é o inverso de uma grande tragédia, Michael Jackson sempre existirá e o motivo da sua morte será aos poucos esquecido, dando lugar aos seus videoclipes, quando não depoimentos de amigos.

Morrer é algo subjetivo, mas seja qual for o seu entendimento, deve ser superado (como já fazem algumas culturas, aliás) entendido e encarado sem subterfúgios. Não podemos deixar que a causa mortis, que pode ser sim, terrível, substitua o próprio sentimento de morte, parte do conceito de vida.

Sunday, May 24, 2009

Alguns conseguem...ser brasileiros

O brasileiro e sua única expressão de patriotismo, a camisa da seleção

O jogador de futebol Ronaldo disse em recente sabatina a um jornal de SP que quer que se eu filho tenha educação europeia e seja europeu, com amigos europeus pois os brasileiros são “malandros”. Nada contra aos brasileiros, mas é assim que ele prefere que sua cria seja crescida. Pois bem, declaração trabalhosa essa.

Primeiro porque ser brasileiro não é uma escolha, ou se é ou não. No caso do seu filho, definitivamente ele é brasileiro. Não só pelo passaporte, mas se você considerar a regra “onde blood drop”, ou seja, se você possui uma gota do sangue dos seus ascendentes, você é também um deles. Ou seja, se ele tem pais brasileiros, ele sempre será brasileiro (e mestiço, diga-se de passagem).
Segundo que por o garoto ter vivido toda a sua curta vida num meio de classe alta italiana, o que foi possível apenas pelos altos salários pagos a seu pai, ele com certeza será educado, mas nem por isso europeu. Para ser algo, é necessário ser aceito pelo seu grupo. Dificilmente ele não terá tarjado em sua testa o nome do Brasil.

De qualquer forma, isso não é importante. O ponto é: Qual o mal de ser brasileiro? Porque Ronaldo não quis vestir essa camisa? Será alguma espécie de trauma?. Também poderíamos nos perguntar se vai ser sempre assim. Apenas o tempo responderá.

O brasileiro antes de tudo, precisa responder ao mundo quem ele é. Um mestiço? Um mulato? Uma pessoa alegre ou que ri por desespero? Enquanto para tudo isso não houver resposta, ficará difícil ser qualquer coisa, inclusive brasileiro.

Abaixo algumas frases que já tentaram definir o Brasil e os brasileiros:

Ser brasileiro é uma coisa única no mundo; é de uma originalidade delirante. Mário de Andrade

O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

Nelson Rodrigues

Assim como o brasileiro foi educado para perder, o americano foi educado para ganhar.
Tom Jobim

Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.
Trecho do livro 'Em Liberdade' de Graciliano Ramos


O brasileiro é um feriado.
Nelson Rodrigues

Sunday, May 10, 2009

Alguns conseguem...trair

Judas e seu amante, Jesus, traído como todos nós já sabemos

Muito ainda se discute sobre a traição, talvez o último dos tabus medievais do ser humano contemporâneo. Do rico ao pobre, todos a sentem. A temem. A condenam. O traidor na nossa sociedade é alguém malvado, sem escrúpulos, que mente como quem vai ao supermercado. Alguém sem chance de defesa.

Se levarmos a discussão sobre traição amorosa, aí é que a coisa fica complexa e trágica. Primeiro porque existe o mito que amar é se aprisionar, é ser uma espécie de celibatário para uma pessoa. Mas o que seria trair hoje em dia? Pensar em alguém com desejo? É ir ao encontro desse alguém? Qual a diferença entre as duas ações?

Segundo porque a traição pode significar duas coisas diferentes para cada um. Para o homem é o sexo: Alguém utilizou seu brinquedo de uma maneira mais criativa que ele. Para a mulher, o compromisso e a rejeição. Alguém mais bonita passou na frente de casa. Para os dois, algo inaceitável numa relação dita séria (saudade de Sartre e Simone de Beauvoir).

Freud dizia que a fantasia é o caminho certo pra cura. Talvez devêssemos encarar o adultério desse jeito: mais um sonho realizado do que uma questão de caráter. Assim, além de diminuir drasticamente o sofrimento, não usaríamos tanto as leis tipo “Maria da Penha” e espaços nas páginas policiais.

Sunday, March 29, 2009

Alguns conseguem...fazer o que se gosta

Quem nunca se sentiu assim? A maioria...

Já falei sobre vencer na vida e sabemos que não é fácil. Mais difícil ainda é fazer o que se gosta. Esse tema é polêmico, pois existem aqueles que defendem que nem todos sabem o que é isso. Apenas chegam, trabalham e vão embora.

Pode ser. Mas o que se vê cada vez mais são os insatisfeitos que mudam de carreira de uma hora pra outra. Não deixo de pensar nos que não conseguem fazer isso. Uma vida toda carregando o piano. Sem saber o que é de fato defender uma opinião; Não poder espalhar para todos o quão bom você é e sentir orgulho disso.

Uma das grandes vilãs desse processo é a questão econômica. Como a maioria das pessoas começa a trabalhar muito cedo, é muito fácil esperar que qualquer mudança vá lhe levar à beira da miséria. De qualquer forma, renunciar ao prazer no ofício é como ser um estrangeiro naturalizado: cedo ou tarde alguém vai notar que você não é dali e isso dói muito.

Mas quem se importa? Voltando ao início, insisto que não é para todos esse tipo de decepção. Nem toda estrela brilha, nem todos possuem a sua estrela, nem todos possuem céu ou horizonte.

Sunday, March 15, 2009

Alguns conseguem...amar os animais

Santa Dog - Deve ser difícil ser um bicho de estimação

Me deparo sempre com pessoas que dariam a própria vida pelos animais. Digo, pelos seus bichos de estimação. Qual a diferença? Explico. Os animais são seres de várias espécies que habitam o planeta terra juntamente com os seres humanos. Os bichos de estimação também são seres de várias espécies “dotados da árdua missão de servir aos seres humanos”.

É comum nos ultrajarmos com todo o mimo que especialmente gatos e cachorros recebem como se fossem meros brinquedos. Mas é o que eles são na nossa sociedade. E que como qualquer produto, têm seu ciclo de uso. Sem abordar outras problemáticas do meio, como os zoologicos, o consumo de carne etc, falemos dos ditos "domésticos".

Dar um bichinho de presente não é um gesto 100% condenável. Você permite que aquele que foi abandonado tenha um lar decente e o mínimo de cuidados que favoreça sua sobrevivência. Mas quando a coisa atinge a economia de mercado a situação fica cruel e repetitiva.

O processo começa com a escolha: a raça, o pedigree, a linhagem. Tudo isso altera o preço, raças que valem mais ou menos, dependendo do que é cool no momento. No período de “uso” do bicho, eles ficam trancados dias inteiros, só existindo para seus donos nos fins de semana. Ou são obrigados a passeios intermináveis - às vezes até dentro de carrinhos de bebês - que para quem tem o corpo coberto por uma grossa camada de pelos, deve ser de um calor infernal.

Por último, o descarte. Em média, após oito ou nove anos, o totó ou o miau não tem mais aquela alegria e não encanta tanto aos pequenos, que já pedem a compra de mais um “irmãozinho”. Ele vai ficando mais e mais no quartinho de empregada até que num belo dia, o tormento acaba com uma ida ao veterinário; sacrifica-se. Isso na melhor hipótese. Ainda tem aqueles que como sobras de uma grande indústria, são destinados ao lixo, que são as ruas e os bares. Com um diferencial, neste caso não há reciclagem.

Saturday, February 28, 2009

Alguns conseguem...estar sóbrios

Amy Winehouse: brilhante e viciada ou viciada e brilhante?

Num mundo cheio de preconceitos e problemas como o nosso, fico pensando no papel que os viciados de hoje desempenham. Seja para justificar cada vez mais a virtude - os digníssimos exemplos do nosso meio - seja para nos lembrar que há algo de podre no reino da Dinamarca.

Temos uma coleção enorme deles. Há os vícios já folclóricos, como o de trabalhar ou o sexo. Também tem os clássicos: drogas lícitas e ilícitas, roubo, compras, mentiras, status, manipulação, entre outros.

O fato é que nunca se soube bem se os que vivem à margem são causa ou consequência. Se são figuras a serem redimidas e trazidas à tona, ou se de tanta clareza e racionalidade, saíram para um mundo em que o que entorpece ajuda a não magoar suas piores feridas descobertas.

Ser viciado é um problema, disso não há dúvida. A questão é: qual o contrário disso? A virtude? A chatice? Margareth Mead dizia que virtude é quando se tem a dor seguida do prazer; o vício, quando se tem o prazer seguido da dor.

Não estou certo se depois de exercer o vício, sente-se dor - duvido que mais do que quem esteve sóbrio. Sei que sente-se culpa, basicamente as que os "sãos" imputam, talvez por não poderem se juntar a essa tentativa de vida.

Saturday, February 14, 2009

Alguns conseguem...viver no campo

O Violeiro, Almeida Jr.

"Eu quero uma casa no campo"- Já dizia a nostálgica Elis Regina nos anos 70. Aliás, não só ela. João Bosco (Rancho da Goiabada) e Zé Ramalho (Vida de Gado) também fizeram sua apologia à suposta cultura do interior brasileiro. Aliás, esse mito também sempre existiu na TV. Basta olhar as novelas. Quantas histórias já se passaram em cidades pequenas: O Bem Amado, Roque Santeiro, Irmãos Coragem, só para ficar nas mais conhecidas.

Vamos lá. O homem do campo é bom, mas o da cidade também é. Os valores rurais são antigos e tradicionais, mas isso não quer dizer nada. As tradições aprisionam, o controle social enrijece vidas que poderiam ser mais interessantes; sempre penso nas pessoas que poderiam mudar o mundo e que podem estar aprisionadas em um cartório, em uma venda ou até em uma indústria, apenas pela falta de oportunidades de fazer mais e melhor. Deixar de viver na cidade pode ser mais barato, mas também tem o seu preço.

Não me compreendam mal. Nada tenho contra em morar numa cidadezinha de 10 mil habitantes ou até em cidades que pretendem ser grandes, mas possuem mentalidade inversamente proporcional ao seu número de habitantes; tudo pode ter seu charme. Olhando pela perspectiva de um idoso ou de um incapacitado, não deve existir nada melhor que acordar de manhã com o orvalho escorrendo pelas janelas ou com qualquer outro espetáculo da natureza na sua porta.

De fato, trocar o sossego por uma cultura cosmopolita, acelerada, pode lhe tirar alguns anos de vida. Todavia, para qualquer ser humano em idade economicamente, socialmente e sexualmente ativa, não existe nada melhor. Apenas a cidade civiliza, pois abriga as diferenças, o interior as deixa mais evidentes. Além disso, não precisa ser minoria para querer ter a sua intimidade preservada. É muito bom não ter que explicar quem era o rapaz que entrou no seu apartamento às 03h da manhã; ou ninguém reparar na sua roupa que está abarrotada ou porque você se separou do marido.

O ser humano é um bicho mutante. Algum lugar deste planeta deve funcionar como um laboratório de experimentações, de novas formas e estilos de vida, só assim a cultura vai se expandindo. Este lugar é a cidade e quanto maior ela for, melhor vai cumprir essa função. É certo que nem todo mundo reflete sobre a própria existência e nem faz questão de transgredir, isso é para a minoria pensante. De qualquer forma, a vida faz mais sentido quando damos vazão aos caprichos da vivência e não apenas quando nos preocupamos com o pão de cada dia. Nem que seja para daqui a 30 anos, tudo o que de mais emocionante que você tenha para fazer seja assistir carneiros e cabras pastando solenes no seu jardim.